"(...) te amo como as begônias tarântulas amam seus congêneres, como as serpentes se amam enroscadas lentas, algumas muito verdes outras escuras, a cruz na testa lerdas prenhes, dessa agudez que me rodeia, te amo ainda que isso te fulmine ou que um soco na minha cara me faça menos osso e mais verdade(...)"
In Rútilos, Lucas, Naim - Hilda Hilst.
Foi você quem me fez exatamente tudo aquilo que eu nunca imaginei ser: Uma mulher-menina-feminina-fêmea-do-sexo-feminino cheia de sonhos românticos, querer ser daquele tipo que larga tudo por amor e gostar da idéia de ter dois filhos lindos com olhos iguais aos teus. Tão diferente para quem quis virar hippie, não ter objetivos na vida, ter um filho sem saber quem é o pai ou, simplesmente, uma típica mulher bruta que só pensaria em ter alguém depois dos trinta e cinco anos, quando cansasse de ser muito só e o relógio biológico começasse a apitar...
Repetem-se os dias em que ter a tua voz silenciando meus ouvidos maltratados por tantas palavras não ditas seria o único som capaz fazer meus olhos terem vontade de ficar fechados, devolvendo meu descanso.
Queria ficar vazia [de você]. Afogar-te, te ver angustiado querendo inspirar o ar e te segurar embaixo da água até que parasse de respirar. Queria te matar de uma vez, já que aos poucos eu não consigo tirar as tuas marcas das paredes dos meus pensamentos... Dar-te um tiro, a queima roupa...
Queria acordar e não ter aquele o pensamento repetido, batido, doído que é a lembrança e a saudade de toda a representação da forma do teu sorriso no canto da boca e o olfato sentindo aquele perfume que só você tem. Também queria colocar tudo o que eu sinto dentro de você. Mas aí seria demais, não está sob o meu querer, entre tantos quereres que não me pertencem.
Assim como queria não ter aprendido que o querer tem dessas coisas, quero não entender que você me fez tão bem que me faz mal. E quando me faz mal, supostamente querendo fazer o bem, gostaria de te bater, te morder, arrancar um pedaço e jogar minha cabeça contra a parede por não conseguir te odiar e nem odiar o amor que eu tenho/sinto/sufoco por você.
E para que servem as palavras se eu não sei usá-las[com você]?
"Um olhar pra perceber muito mais do que a solidão me diz
Vou acordar ao amanhã pra contestar a cor do céu azul
E vou me antecipar, pomares vão nascer
E eu torço pr'o amanhã vir enquanto durmo"
[Swinga- Mombojó]

Os movimentos involuntários aceleram a fadiga e aquela sensação ruim não passa, tendendo a ser acentuada por palavras onde as formigas não passeiam, nem abelhas vem pousar.
Quando um músculo que se movimenta, sem a nossa permissão, resolve ficar contraído, espremendo e embaralhando o que há dentro dele, mãos e pés, confusos, cismam em trocar de lugar, às vezes, trazendo dias líquidos.
Eu, ainda, jogo moedas cunhadas com sorrisos cansados, mas sorrisos, acreditando que, numa hora, na certa, mesmo que aparente ser a errada, tudo vai ficar no lugar.
Pequena entre as cores que eu inventei a meu bel prazer, sem permissão de ninguém meu deus, sem permissão de ninguém...
Uma resposta para Ele:
Os pensamentos são livres, são teus e vão para onde você os conduzir. Alguns podem chegar a ato, a fato, a passo (como escrever palavrinhas anônimas para que eu leia).
Minha vida é cheia de 'eles', amigos, um amor aqui outro acolá, alguma coisa mais que amor...
Só sei, Ele, que palavras escritas em cartões, com "bic" azul, por anônimos, não me convencem. Muito menos rosas vermelhas, já que minhas flores preferidas sempre foram girassóis, violetas e as charmosas begônias que povoam meu jardim imaginário assim, em contraste de cores e tamanhos.
Eu gosto da coragem dos rostos, das vozes e das palavras ditas mesmo que sussurradas, principalmente ao pé do ouvido. Não precisam ter a beleza de quem conhece toda a variedade de um dicionário, mas que sejam sinceras e vindas de um lugar que só o bem querer tem. Se elas não forem tão macias? Que a sejam da mesma forma, sinceras, ainda que doam mais do que eu ache que possa suportar.
Estes misteriozinhos não me agradam. E fim.